quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Sobre o desconcerto do mundo.

Ligo a televisão e, no jornal, está passando a nóticia do pai que jogou a filha do sexto andar, mais um vez. Passa-se o choro da mãe, a comoção da população, a negação do pai, e tudo isso gera audiência e tudo isso causa espanto nas pessoas e tudo isso é esquecido meses depois. Mudo de canal, passa uma reportagem sobre cirurgias plásticas, sobre como fazer um implante de silicone perfeito e como perder aquela borda de catupiri que temos ao redor da cintura, e tudo isso me dá nojo, toda essa futilidade das pessoas, tudo que elas fazem para ter um corpo perfeito e como param de comer, como se submetem a cinco horas de cirurgia para por nos peitos coisas molengas. Então mudo de canal de novo e passa um noticiário sobre a destruição do homem e do planeta. Desligo a tv, pois não preciso desse noticiário para saber como o nosso planate tem andado e qual será o futuro dele. Saio pelas ruas.

Na primeira esquina vejo um homem pedindo esmola, todos passam por ele e o ignoram, como se em seu lugar houvesse um nada, como se ele não fosse um homem e sim um obstáculo no cominho do trabalho, do almoço ou da casa. As pessoas não veem mais as outras. Caminho e vejo uma réplica da mesma cena, milhões de pessoas dormem nas ruas sem ter o mínimo de higiênie ou saúde. Centenas de idosos dormem ao relento, dormem sobre o sol ou sobre as tempestades, dormem sem ter o que comer e escutam o ronco das barrigas de seus filhos à noites sem nada poder fazer, porque ninguém os ajuda, ninguém ajuda os obstáculos. Na orla da praia vejo uma aglomeração e vou ver do que se trata. Mais um pinguim que se perdeu e chegou ao litoral brasileiro. As pessoas ficam loucas querendo saber o que podem fazer para ajudar o pegueno pinguim idiota e ninguém se toca que do outro lado da rua havia um mendigo morto. Alguns até lhe lançam um olhar de desprezo, como se ele estragasse aquele momento sublime do pinguim. Porque as pessoas só se incomodam com aquilo que é distante, com o que não as atinge, com o que elas não veem todo dia.

Os pinguins nos comovem muito mais do que as crianças que pedem dinheiro no sinal. A fome da África é muito mais importante do que o menino do centro da cidade que morreu sem ter o que comer e as milhões de crianças que morrem no Brasil pelo mesmo motivo. A gente sempre gosta mais daquilo que não conhecemos bem, esse é o nosso mal.

Parece que a Terra está girando ao contrário, houve uma inversão de valores, as pessoas não respeitam as outras, nem respeitam a si próprias. A edução não é mais importante, em seu lugar o dinheiro é supervalorizado. Mas o dinheiro não compra respeito, nem caráter. O dinheiro pode impor medo, submissão, mas não há dinheiro no mundo que compre a maturidade. O amor deixou de ser importante para as pessoas, hojes elas só amam a si próprias e figem amar as outras. Parece que o mundo está regredindo, os homens se comportam como macacos e eu vejo o desconcerto do mundo. O mundo vira um inferno e queima as nossas vidas, e queima nossos sonhos. E nós queimamos nosso dinheiro.

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