Eu me chamo Fernanda. Mas podem me chamar de Danda, Nanda, Fê, Pão doce, gorda, Sorriso... Enfim, podem me chamar como quiser, podem me chamar por apelidos carinhosos, ou nomes feios, mas eu prefiro a primeira opção, entretanto isso fica a seu critério. Eu gosto das pessoas, gosto muito delas. Gosto do cheiro das pessoas, como cada uma tem o seu jeito, gosto do modo estranho como cada pessoa anda, fala, come, percebe as coisas. Eu gosto de conhecer pessoas e saber da vida delas, das histórias pessoais, eu tenho fome por conhecimento das pessoas. Eu tenho medo das pessoas. Tenho medo da crueldade e da forma como elas tratam os outros, tratam como se fosse lixo. Tenho medo do que as pessoas fazem com o mundo, tenho medo do que as pessoas farão a si mesmas. Acho que no futuro voltaremos ao canibalismo, se já não houvermos voltado. Eu gosto da solidão. Sinto um enorme prazer em estar só. Tão só que nem eu mesma me vejo, ou me escuto. Eu gosto da beleza da solidão, gosto da forma como ela faz com que nos enxerguemos melhor, gosto da forma como a solidão esclarece as coisas, mas não gosto do vazio proporcionado por ela.
Certas vezes eu assusto a mim mesma, outras vezes eu me faço rir, e nesse intervalo entre o riso e o espanto há uma breve tristeza, mas bem breve. Eu tenho mudanças repentinas de humor. Eu sou uma criança, ou talvez eu seja uma velha, ou talvez em seja ambas as coisas na cabeça de uma jovem, ou talvez não seja nada disso. Eu sou confusa demais, ou talvez eu saiba exatamente o que eu quero, mas me falte coragem para dizê-lo, talvez eu só goste de dizer “ou talvez...” porque a incerteza é ao mesmo tempo bela e chata. Eu gosto de coisas que são vistas de formas diferentes ao mesmo tempo.
Eu gosto de achar coisas onde não tem. Eu vejo graça onde não tem, eu vejo beleza onde não tem, eu vejo alegria onde só há tristeza, eu vejo coisas ruins também onde absolutamente não tem. Eu acho que me preocupo demais com o mundo e tudo mais, acho que nasci na época errada, ou talvez não, mas eu não me sinto como as pessoas desse tempo, na verdade, acho todas acomodadas demais, acho que sou meio revolucionária. Ou talvez seja sonhadora demais. Na verdade, sou ambas as coisas.
Eu gosto de sorrisos, de brincadeiras, de comida, de chocolate. Gosto do mundo, do verde, da cor azul, do céu. Gosto da idéia do céu, que todas as pessoas vão para lá, gosto daquela idéia que Deus mora lá, e dos portões de ouro, é gosto muito. Eu gosto de amigos, gosto do sol, gosto de como os olhos queimam quando olham para ele por muito tempo, eu gosto da lua, da chuva, do medo. O medo é bom, mostra que somos humanos, o ruim é o medo do medo. Eu gosto de livros, gosto de histórias, gosto de inventar histórias, gosto do amor, é no fundo, no fundo, eu gosto do amor. Eu gosto da idéia de conhecer uma pessoa como se ela fosse você, gosto da idéia de que o amor nunca vai acabar e gosto especialmente das bobagens vindas com o amor. O amor nos torna patéticos, e eu gosto disso, gosto de ver as pessoas com os olhos brilhando por conta do amor, gosto de poder ouvir o coração delas ao ouvir o nome do amor. Não gosto disso tudo pra mim, na verdade eu tenho medo, eu acho.Eu não gosto de programas de auditório, de sons de ronco, não gosto de quem conta o fim do filme, eu não gosto de pessoas idiotas. Pessoas idiotas me estressam e dão raiva. Eu não gosto de pessoas grandes, porque sou baixinha, e não gosto de pessoas que explicam tudo, eu não gosto de explicações demoradas e histórias sem fim. Eu odeio a futilidade e a grosseria, eu às vezes sou grossa. Odeio a ignorância e não odeio a estupidez, a estupidez está em tudo.
Eu falo demais, eu riu demais, eu finjo demais, eu não sou tão feliz assim. Talvez eu seja até bem triste, ou talvez eu saiba fazer com que minha tristeza seja escondida, eu sei pintar as partes feias, fazer reajustes e deixar ela bem bonita, como se fosse a felicidade. Mas isso é apenas um talvez, como quase tudo que eu digo. Ou talvez não.

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