Eu faço parte da massa, das pessoas paraplégicas e sem voz, faço parte das pessoas cegas, das pessoas invisíveis que você esbarra todo o dia, mas não está nem ai. Eu faço parte dos tiros, da violência, faço parte do sangue que mancha o rio de janeiro, faço parte do seu pesadelo, faço parte da sociedade do terror. Eu faço parte dos choros inconsoláveis das mães que perderam os filhos, do grito de revolta de um pobre, eu faço parte dos mostros que vivem debaixo da sua cama. Eu sou tudo que te amedronta.
Eu faço parte das brincaderas, dos sorrisos sinceros, da cantiga de roda. Eu faço parte das suas melhores lambranças, do melhor brinquedo que você já teve. Eu faço parte da porcalhada que você fazia quando tomava sorvete, do rosto do seu melhor amigo. Eu sou toda a sua infância.
Eu faço parte das pessoas que consomem artigos de luxo, bolsas da Prada e roupas da D&G. Eu faço parte do luxo das senhoras de NY, dos corrões que os empresários dirigem. Eu faço parte do pequeno grupo de pessoas que recebem a maior parte do dinheiro mundial. Eu faço parte das presidências em todo o mundo. Eu faço parte do consumismo e do exagero. Eu sou todas as coisas fúteis.
Eu faço parte da inveja que mata, da ira que consome, da luxúria que devora, da avareza que arrasta. Eu faço parte da vaidade das mulheres, da preguiça dos gordos, da gula das anoréxicas. Eu sou todos os pecados.
Eu faço parte das fotos amareladas, das conversas esquecidas, dos tempos de outrora. Eu faço parte da música lenta e dos anos noventa, eu faço parte daquilo que fica bem dentro da meméria. Eu faço parte daquilo que guardamos dentro do armário, do vestido de criança, das histórias guardadas em túlmulos, de tudo aquilo que se perdeu. Eu sou todo o passado.
Eu faço parte da inocência das crianças, do sorriso dos sem dentes. Eu faço parte do medo que a morte tem, eu faço parte da crença dos humildes e da esperteza dos ladrões. Eu faço parte das promessas dos presidentes, da fome na àfrica, da miséria dos brasileiros, eu faço parte dos amantes que olham para a lua, e dos que ficaram cegos por olhar demais para o sol. Eu faço parte das rodas de conversa no botequim, da olhada na janela, do eterno dilema entre o "ser ou não ser". Eu tenho em mim todos os pecados e todas as virtudes, todo o mundo em minhas mãos, porque eu sou um pouco Deus também. Eu sou todos os humanos.

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