Então o Pierrot me disse que ao seu redor ele via todos os amores do mundo, via os olhares encantados dos amantes e o riso eterno dos apaixonados. Ele via a beleza do amor, mas não sabia como era ser amado, afinal a Colombina jamais lhe cedera o coração.
Ele escrevia poemas na esperança de um dia ela lê-los e apaixonar-se por ele. Escrevia poemas de amor, de um amor belo e eterno, escrevia sobre o amor que ardia em seu peito e que guardava para si, talvez por medo, talvez por insegurança ou talvez simplismente porque fosse egoísta e quissesse só para si aqueles versos mágicos capazes de encantar corações de pedras, que faziam todos acreditar no amor, até os que diziam que ele não existe.
Certa vez o Pierrot resolveu mostrar para a sua amada um poema ao qual lhe dera o nome e a Colombina o desprezou. Talvez ela tivesse o coração de pedra, talvez fosse incapaz de perceber o amor que transbordava daquelas palavras e das mãos tremulas do Pierrot ao lhe entregar a folha, ela era incapaz de ver o amor que lhe enchia os olhos ao vê-la. Talvez ela só fosse muito apaixonada pelo Arlequim e por isso o amor que ela sentia por ele o cegava para qualquer outro.
Sendo assim, o Pierrot fez-se triste, fez-se solitário, fez-se velho. Passou de uma criança apaixonada para um velho triste e pessimista. Ele se encheu de vícios e melancolias. Trancou-se num mundo imaginário com seus poemas e pensamentos negativos alheio a qualquer pensamento positivo sobre o amor. Assim passou-se o tempo e a amardura que criara para o seu coração enferrujou e se quebrou aos poucos. O velho triste foi cedendo espaço para a criança que ali dormia, mas bem lentamente. Essa criança era sonhadora como todas as crianças, tinha esperanças e acreditava em dias melhores. O velho foi sendo ajudado pela criança e assim realizou pequenos milagres como acabar com vícios e dar fins felizes para poemas que há muito só sabiam terminar com fins trágicos.
O velho aprendeu a sorrir com a criança e a criança aprendeu a controlar-se com o velho.
Assim passou o tempo. Às vezes vejo no Pierrot uma criança de olhos sonhadores, às vezes vejo um velho com aqueles olhos tristes de quem já viu de tudo. Às vezes seu sorriso demonstra uma alegria típica das crianças e às vezes o seu silêncio conta as histórias de uma vida de tristezas. Às vezes eu não sei quem ele é, e outras vezes tenho certeza de quem é. Mas, afinal, ele sempre será um eterno amante procurando ter em seus braços um coração- em qe para isso ele tenha de arrancar o próprio. Mas na verdade o que ele quer mesmo é o coração de uma moça que ele não sabe nem o nome, nem se ela vai desprezá-lo, mas que ele sabe que a ama.
P.S: Fiz esse texto para um amigo, espero que você goste. Se não, deixarei aqui, porque ele me faz lembrar de você, de suas histórias, suas melancolias,suas alegrias e seus amores.

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